O NÚMERO DA BESTA, O 666

"Aqui está a sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. Ora, esse número é seiscentos e sessenta e seis" (Ap 13.18).



O que significa o número da besta? Uma grande quantidade de tinta já foi gasta com esta fascinante, porém desnorteante, questão. Dizem que o número representa o imperador Nero, ou Calígula, ou Domiciano, ou os Césares em geral, ou o Império Romano, ou qualquer outra das muitas soluções propostas. A maioria dos casos está baseada no fato de que tanto em grego quanto em hebraico, assim como em latim os numerais eram representados pelas letras do alfabeto, sendo que as letras dos vários nomes tinham valores numéricos que, somados, atin­giam o total de 666.15 Por exemplo, qsr nrôn (maneira hebraica de so­letrar "Nero César") pode ser somado da seguinte forma: 100 + 60 + 200 e 50 + 200 + 6 + 50. Estamos convencidos de que todas estas respostas estão erradas, porque a própria questão está errada. O número não representa ne­nhuma pessoa em particular, nem tampouco uma instituição; o nú­mero representa simplesmente a besta.


Em um momento tentaremos aproximar-nos de Apocalipse 13:18... Antes de fazer isso, no entanto, gostaria de consi­derar a frase: "é número de homem" ou "é o número de um homem" (ERC). Paulo usa uma rodada de frases bem semelhantes, diversas ve­zes,16 quando ilustra alguma verdade espiritual, utilizando-se, para tanto, de uma analogia tirada da experiência humana. João faz o mes­mo com o tempo e com os números. Um exemplo é a duração da época da igreja. Jesus tinha dito que o espaço de tempo entre a primeira e a segunda vindas era assunto do conhecimento exclusivo de Deus: "Mas a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos nos céus, nem o Filho, senão somente o Pai" (Mt 24:36). Não vos com­pete saber o tempo ou hora que o Pai reservou para sua exclusiva au­toridade" (At 1:7). O número real de anos envolvidos é conhecido por Deus, mas não deve ser conhecido pelo homem. De qualquer forma, é dado aos leitores humanos do Apocalipse um número como espé­cie de código: 31/2 anos = 42 meses = 1.260 dias = a duração da época da igreja. Pode-se pensar que este era um número "humano" apro­priado porque corresponde à duração do ministério do Senhor Jesus Cristo. Se for aceito que pouco mais de três anos transcorreram entre o batismo e a ascensão do Senhor Jesus Cristo, então "três anos e pou­co" ou três anos e meio seriam um excelente símbolo para o período entre o batismo da igreja no dia de Pentecostes, e ascensão para en­contrar o Senhor quando ele voltar.

Outro exemplo é o número do povo de Deus. O número verda­deiro é segredo divino: Somente "o Senhor conhece os que lhe per­tencem" (2 Tm 2:19), e quando João viu a igreja toda, era uma mul­tidão inumerável (Ap 7:9). Mas para a conveniência dos leitores hu­manos, é dado o número 144.000 como código (7:4).

Um terceiro exemplo pode ser encontrado em 21:17, onde as pa­redes da cidade celestial medem 144 côvados (provavelmente de lar­gura e não de altura). Isto só pode ser o que o próprio texto diz a res­peito, ou seja uma " medida de homem", pois ao contrário da dura­ção da época da igreja e do número total de seus membros, a Jerusa­lém celestial simplesmente não possui dimensões que possam ser com­putadas em termos humanos; é dada uma medida humana para que possamos imaginar algo que é absolutamente inimaginável.

É uma maldade realmente tratar a besta e o seu número de qual­quer forma diferente. A igreja é representada por figuras (os anciãos, a mulher, as testemunhas) e por um número (144.000). A época da igre­ja é simbolizada por figuras (a mulher que é preservada, a pregação das testemunhas, as nações ocupando Jerusalém), e por um número (três anos e meio). A falsa religião é simbolizada por uma figura (a besta da terra) e por um número (666). O número 666 não representa Nero, nem Calígula, nem Roma. simplesmente representa a besta, a falsa religião.

E isto é exatamente o que João diz. O nosso amigo da lampari­na lê Apocalipse 13:18 de uma só vez — não é um versículo só? — e o interpreta como se fosse uma charada: "Aqui está a sabedoria. Aque­le que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. Ora, esse número é seiscentos e sessenta e seis!' Nosso ami­go aceita que o versículo inteiro seja um quebra-cabeça, onde o nú­mero 666 é o ponto inicial, e o que é necessário é estabelecer o signi­ficado do número 666. Desta forma ele embarca na solene discussão acerca de Nero e de todo o resto. Mas João não disse: "descubra o sig­nificado do número". Ele disse: "calcule o número". A questão levan­tada por João vai até o ponto do versículo 18 depois das palavras "é número de homem"; o resto do versículo é a resposta. Quebra-cabe­ça: que tipo de número você acha que pode ser utilizado para repre­sentar a falsa religião? Solução: 666.

Vamos então parafrasear o versículo, como deve ter sido lido aos ouvintes originais. "Deixemos que aqueles que têm entendimento es­tabeleçam o número da besta — um número 'de homem', um código como os utilizados para simbolizar a igreja e a época da igreja. Que poderemos nós sugerir?" Que tal algo que parece verdadeiro, mas que não é?" "Um número o mais próximo possível da perfeição, mas que não a alcance?" "E se o símbolo da verdade básica é sete, que tal o número 6 para a falsa religião?" "Seria muito apropriado. De fato, porque a besta em todas as suas atividades está constantemente erran­do o alvo, o número que João escreve aqui não é somente 6, mas 666." Pode não ter sido exatamente desta forma. Mas esta abordagem pa­rece ser mais coerente com o uso que o Apocalipse faz dos símbolos em geral, do que os vôos fantásticos executados pelo nosso amigo da lamparina e da biblioteca empoeirada.

Michael Wilcock, A Mensagem de Apocalipse (adaptado)

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